<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-26071486</id><updated>2011-10-08T11:26:12.139Z</updated><title type='text'>Evasões Bárbaras</title><subtitle type='html'>Impulsos frequentes de escapar ao real, através da imaginação e do devaneio.&lt;br/&gt;Ponto de fuga de um quotidiano em perspectiva.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://evasoesbarbaras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26071486/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://evasoesbarbaras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Bárbara Vale-Frias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09178884013720080682</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://photos1.blogger.com/img/239/5059/200/Untitled-51.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26071486.post-114582653251428928</id><published>2006-04-23T20:44:00.000Z</published><updated>2006-04-28T19:53:42.356Z</updated><title type='text'>Noite Escura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A cidade apagara-se, havia meia hora, exausta de si própria. Fora um desmaio súbito e caíra, segundos depois, naquela paz enganadora em que, no silêncio inusitado, tudo pode acontecer. A Lua Nova, que já cruzava, invisível, o céu brumoso de Janeiro, era igualmente incapaz de distinguir as formas voluptuosas das sete colinas e a vida desenhava-se apenas no sistema circulatório do tráfego que fazia bater o coração da metrópole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afastou-se da janela, libertando-se daquela inércia que a mantivera prisioneira da expectativa e deixando todo o seu tédio condensado no vidro. Imediatamente engolida pela escuridão da sala, estabeleceu um mapa mental do seu mobiliário e contornou, com a presteza de uma gata, todos os obstáculos até à sala de banho, contígua ao quarto. No percurso, foi experimentando a textura dos vários tecidos e a temperatura dos diversos materiais, identificando curvas e vértices pelo toque suave das suas mãos que, como uma bússola, lhe indicavam o caminho. Aproximou-se da bancada do lavatório e tacteou as gavetas, abriu a terceira e retirou do seu interior um isqueiro e uma vela que logo perfumou a atmosfera. Acendeu-a. Era uma vela da cor da madeira doce da caneleira, curta mas de abusado diâmetro, e cujo pavio iluminou debilmente a espaçosa divisão que fora especialmente projectada para momentos de puro prazer e relaxamento. Afastou, então, a cortina de banho, tapou o ralo e rodou a torneira da água quente que, licenciosamente, começou a encher a banheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendeu mais algumas velas aromáticas e o cheiro a canela misturou-se, rapidamente, com o travo cítrico a laranja que rompeu a nuvem de vapor. Espalhou as velas pela bancada de mármore e pelo rebordo largo da banheira, que acolhia vários frascos de sais de banho e uma tábua comprida de ripas, sobre a qual repousava uma colecção de sabonetes. No parapeito de madeira, que emoldurava a enorme janela por cima da banheira, encontrava-se uma jarra com canas de bambu de folhagem alta e viçosa e uma taça de coloridas pérolas de gelatina translúcida, as quais encerravam óleos de banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afastou um pouco mais a cortina e temperou a água que se começava a evaporar logo à saída da torneira. Da gaveta, ainda entreaberta, retirou um pacote que colocou em cima da bancada. Elevou uma vela mais delgada e dirigiu-se à cozinha. Lavou vários morangos maduros e, com a ajuda de uma faca afiada, que se encontrava magneticamente suspensa na barra metálica sobre o lava-loiça, retirou-lhes o caule, colocando-os, em seguida, num prato fundo e regando-os, depois, com sumo de limão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou à sala de banho e, atravessando, a atmosfera saturada, fechou a torneira. A banheira possuía já água suficiente para nela afundar todo o seu corpo que parecia, cada vez mais, implorar por esse deleite. Retirou duas bolas de óleo e, ansiando pelo seu efeito relaxante e hidratante, soltou-as na água quente, revolvendo-a. Em seguida, abriu o saco que deixara em cima da bancada e vazou, cuidadosamente, o seu conteúdo para dentro da banheira, espalhando as pétalas de rosa vermelhas por toda a superfície da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela sauna acolhedora, quase mágica, despiu-se lentamente, vestiu um roupão turco e calçou os chinelos rasos do mesmo tecido. Depositou a sua roupa para lavar no cesto que se encontrava ao canto, junto a uma chaise longue, e atravessou o quarto para ir arrumar os sapatos na respectiva caixa. Foi, então, que ouviu passos nas escadas; depois, ainda a uma certa distância, um tilintar abafado de chaves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reentrou na sala de banho e despiu o roupão, pendurando-o atrás da porta, que fechou. Descalçou os chinelos e colocou o prato de morangos maduros na orla da banheira, imergindo naquele caldo fragrante e acetinado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só então ouviu a fechadura da entrada de casa a ceder a uma chave que, no seu interior, rodava vagarosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26071486-114582653251428928?l=evasoesbarbaras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://evasoesbarbaras.blogspot.com/feeds/114582653251428928/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26071486&amp;postID=114582653251428928&amp;isPopup=true' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26071486/posts/default/114582653251428928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26071486/posts/default/114582653251428928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://evasoesbarbaras.blogspot.com/2006/04/noite-escura.html' title='Noite Escura'/><author><name>Bárbara Vale-Frias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09178884013720080682</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://photos1.blogger.com/img/239/5059/200/Untitled-51.jpg'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26071486.post-114532033959664980</id><published>2006-04-18T00:25:00.000Z</published><updated>2006-04-18T01:05:40.556Z</updated><title type='text'>O Outono do Patriarca</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#000000;"&gt;&lt;br /&gt;O ouriço espinhoso secou, no alto do velho castanheiro manso cuja copa se escondia para lá da moldura da janela, e a castanha, brilhante e madura, rompeu a cápsula que a envolvia. Embateu num galho próximo, mudou ligeiramente de trajectória, arrepiou algumas folhas longas e dentadas, já amarelecidas, e, desamparada, embateu, segundos depois, junto ao caule lenhoso, na manta morta que lhe amorteceu o impacto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os raios de luz, enfraquecidos por uma inclinação que se acentuara nos últimos dias, dispersavam a sua já débil energia, incapazes de conservar morno o entardecer. Um chuvisco juntou-se ao quadro e as suas gotas, miúdas e espaçadas, depressa despontaram o odor inebriante a terra húmida que se misturou com o perfume adocicado da marmelada ao lume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distinguiu um arrulhado, ao longe, sobre o som balsâmico dos pingos a desfazerem-se no tapete alaranjado de folhas caducas. Seria uma rola atrasada para a sua grande cruzada migratória ou talvez uma daquelas que já se escusavam a partir para terras pouco mais quentes. Quando a passagem da colher de pau pelo doce viscoso deixou um sulco perfeito que denunciou o fundo da panela, desligou o aquecimento e desviou o olhar na direcção da janela, demorando-o nos galhos retorcidos e desarmados, numa ausência vaga que, antes de ser processada, foi interrompida pelo ranger de molas que chegava do primeiro andar. Aproximou-se das escadas e falou para cima:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixei-te um colete de malha em cima da cadeira do quarto. Veste-o. Enquanto dormias, arrefeceu bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou para a cozinha e procurou o relógio de parede. Deviam estar a chegar. Reuniu, rapidamente, as cascas e as sementes dos marmelos nas mãos e despejou-as no caixote de lixo. Abriu a porta de um armário, retirou duas tigelas fundas, para as quais verteu a marmelada clara, ainda quente e macia, e tapou-as com rodelas de papel vegetal. Colocou as taças na bancada, junto ao parapeito da janela e recordou-se, nostálgica, das tardes inesquecíveis, para sempre prisioneiras de outro século, quando se juntava à avó Teresinha e, juntas, entre ensinamentos e afectos, naquela misteriosa cumplicidade genealógica, preparavam as mais aromáticas iguarias com que, orgulhosas, arrastavam lentamente toda a família para a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pintas já havia dado o primeiro sinal, ladrando e ganindo alternadamente, mas foi o som metálico de uma aliança, a colidir suavemente com o vidro martelado da porta, que lhe sonegou, mais uma vez, o passado. Limpou as mãos ao avental, retirando-o com celeridade, deu um jeito no cabelo, eliminou qualquer vestígio de saudade de seus vivos olhos verdes e foi ao encontro dos vultos difusos que, do outro lado, aguardavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As visitas de Sábado eram sempre o ponto alto da semana. Apareciam ao lusco-fusco e a sua chama, resplandecente, iluminava, a partir daí, a noite que se debruçava sobre o Douro. E desde que o marido ganhara o solitário e errante hábito de partir, repentinamente, para lugares distantes e nebulosos, faziam-lhe bem outras companhias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o pai, mãe? Como tem passado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai andando, filha, vai andando… por onde é que não sei bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos vidraram-se-lhe nos degraus da escada e recordou-se, cativa de uma tristeza infinita, da última vergonha que passara, numa pastelaria da Régua, quando o marido a forçara a deslocar-se à casa de banho para lhe apresentar um senhor muito simpático que lá estava. Sorriu-me muito e disse-me várias vezes olá, tens de o vir conhecer, insistira, minutos antes de lhe indicar um simples e frio espelho de parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escada, surgiu José, arrastando-se pesadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o colete de malha que te deixei na cadeira? Já não está tempo de andar só com uma camisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu vesti-o – e, desabotoando dois botões, puxou para fora uma ponta de malha e rematou, pomposo -, tal como tu me disseste.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26071486-114532033959664980?l=evasoesbarbaras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://evasoesbarbaras.blogspot.com/feeds/114532033959664980/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26071486&amp;postID=114532033959664980&amp;isPopup=true' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26071486/posts/default/114532033959664980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26071486/posts/default/114532033959664980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://evasoesbarbaras.blogspot.com/2006/04/o-outono-do-patriarca.html' title='O Outono do Patriarca'/><author><name>Bárbara Vale-Frias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09178884013720080682</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://photos1.blogger.com/img/239/5059/200/Untitled-51.jpg'/></author><thr:total>21</thr:total></entry></feed>
